segunda-feira, 25 de abril de 2011

Feliz Páscoa

Ontem foi domingo de Páscoa. No entanto, essa festa é antecedida pela quaresma, período de penitência com que se preparam para essa grande comemoração aqueles que procuram ser fieis aos ensinamentos cristãos. Mas não será que essa proposta de sacrifício algo ultrapassado, talvez incompatível com o grau de evolução que a sociedade humana atingiu neste início de terceiro milênio?
Penso que não é verdade que o sacrifício tenha sido banido da vida das pessoas em nosso tempo. É comum trabalhar num ritmo alucinante até doze ou mais horas por dia, no afã de uma ascensão econômica e profissional. Também as crianças e jovens são exigidas desde muito cedo a buscarem bons rendimentos escolares, a frequentarem cursos de línguas e inúmeras outras atividades extracurriculares de modo a encarar o mercado de trabalho cada vez mais competitivo. E isso sem contar as horas de academia de ginástica, clínicas de beleza para se manter o físico dentro de um padrão imposto por aquilo que já se convencionou chamar de ditadura da beleza.
Não é do sacrifício que fogem o homem e a mulher desse admirável mundo novo. Numa sociedade excessivamente individualista soa como incompreensível e inaceitável sacrificar-se por algo que não seja em benefício próprio. Essa postura, ou melhor, essa opção de vida centrada em si mesmo, somente gera tristeza, vazio interior e insatisfação. É que, hoje como ontem e sempre as grandes realizações, capazes de preencher de alegria e realização o coração humano dependem de esforço, um dia após outro em pequenos detalhes, como pequenos são os tijolos de que são feitas as grandes construções.
Lembro-me de um amigo que contava o diálogo que teve com um sacerdote amigo seu. Ele confidenciava que pretendia ficar a quaresma toda sem tomar cerveja. “Mas e se nesses dias receber um amigo que gosta muito de tomar uma cervejinha gelada com você, vai recusar?”, disse o sacerdote, meio que em tom de provocação. “Sim”, respondeu o meu amigo resolutamente. “Veja bem”, prosseguiu o padre, “é muito bom fazer sacrifícios como esse, mas eu tenho uma sugestão um pouco melhor: faça uma lista das reclamações que sua esposa faz contra você”. O meu amigo pensou um pouco e começou a enumerar: “sujar o espelho do banheiro ao me barbear, chegar mal humorado a casa nas quartas-feiras, não lhe dar atenção quando ela me telefona durante o horário de trabalho...”. “Acho que já está bom”, interrompeu o sacerdote. “Então por que você não se esforça nesta quaresma por fazer isso que agrada a sua esposa? Quanto à abstinência da cerveja, quebre-a quando for oportuno para ser mais agradável com um amigo, por exemplo.” Ele ficou satisfeito, porém, alguns dias após, pensou que teria sido muito mais fácil ficar apenas sem a cerveja...
E exemplos de sacrifícios que valem a pena, pois tornam mais agradável a vida das pessoas com quem convivemos, podem se multiplicar. Soube de um pai que, ao chegar a casa se esforçava por deixar as preocupações da porta para fora. Assim, não se queixava ao levantar de madrugada para preparar uma mamadeira ou de renunciar ao telejornal para participar de jogos com os filhos após o jantar. Com isso, o ambiente familiar se tornou cada vez mais alegre e sereno, tanto que se aguardava com ansiedade o momento em que retornaria do trabalho ao convívio familiar, ainda que não faltassem os trabalhos e penas de cada dia.

Páscoa significa passagem. De certo modo, o que dá sentido e alegria a essa vida nova é o amor que leva ao esforço por alcançá-la. É isso o que ocorre em nossas vidas. Podemos escolher, todos os dias, o que seremos no futuro. O esforço diário por construir um casamento feliz, por educar os filhos, por cultivar saudáveis amizades será o grande tesouro que teremos ao final. Se nos perdemos a reclamar da vida e a pensar somente em nós mesmos não é de se estranhar que se alcance apenas frustração e solidão. Ao contrário, o esforço e o sacrifício por aqueles com quem convivemos é que construirá o edifício sólido e agradável a que todos acorrem para encontrar remanso, serenidade e alegria.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

A indiferença

Causou comoção no Brasil e no mundo o assassinato brutal de jovens numa escola do Rio de Janeiro. Ao nos depararmos com tamanha brutalidade, que ceifa a vida de pessoas inocentes, fica em todos nós uma grande indagação: por quê?
Comportamentos patológicos como esse não permitem explicações simplistas. Há muitas causas que podem desencadear doenças psíquicas e mesmo aos especialistas é difícil dar uma explicação exata.
Mas o fato nos chama a atenção para um dado que merece ser ponderado: vivemos num mundo de pessoas cada vez mais solitárias e infelizes. Ainda que cercadas por uma multidão, trazem no peito o insuportável peso de um vazio na alma. São homens e mulheres que perambulam de um lado a outro num ritmo frenético e sem sentido. E se alguém lhes indagar sobre a razão de suas vidas, muitos não terão a resposta.
O que mais profundamente caracteriza o homem e a mulher é a vocação para o amor. Todos trazemos um enorme anseio de sermos amados. Esse anseio natural já se manifesta desde o nascimento, quando a criança depende não apenas do alimento da mãe, mas, sobretudo, do seu carinho e afeto para desenvolver a sua personalidade. Nas outras fases da vida essa necessidade assume matizes diferentes, sem deixar de ser a mesma. Por exemplo, o adolescente desenvolve uma linguagem própria e se sujeita a se vestir de determinado modo e a praticar determinadas atividades apenas para ser aceito no seu círculo de amigos. E isso nada mais é que uma forma de manifestar aquele mesmo desejo de ser aceito e estimado (no fundo o que se quer é ser amado). E o mesmo ocorre nas outras fases da vida.
E desse anseio por ser amado se segue uma consequência de igual força e importância, que é ser no mundo e entre aqueles com quem convivemos um polo irradiador desse mesmo amor que desejamos receber. É precisamente por isso que o egoísmo gera apenas tristeza e frustração. Podemos nos comparar, apesar da imperfeição de toda comparação, a uma fonte. Do mesmo modo que se capta a água nas profundezas da terra, essa deve ser jorrada para fora, pois, do contrário, seca e se mantém estéril. Igualmente, temos a necessidade de sermos e nos sentirmos amados, porém, a isso se há de seguir de nossa parte os atos concretos com os quais manifestamos aos outros esse mesmo amor.
Por isso, é inaceitável que numa família haja alguém triste, isolado ou acanhado sem que a isso se siga um movimento intenso dos pais, irmãos ou filhos por acolher a essa pessoa e, no que estiver ao nosso alcance, tirá-la daquela situação que a aflige. Ninguém pode nos ser indiferentes, tanto menos em nosso lar. E para isso não é necessário fazermos coisas estranhas ou extraordinárias. Muitas vezes bastará um sorriso, um gesto, a disposição de ouvir um desabafo ou simplesmente dar um passeio juntos.
E algo semelhante deve ocorrer no ambiente escolar. O aluno acanhado, o tímido, o que apresenta maus resultados, o bagunceiro, todos, de uma forma ou de outra, estão gritando: “eu existo e quero ser amado”. Ao mesmo tempo, ainda que não saibam, trazem um grande anseio de servir e de serem úteis aos demais. Por isso, quando são estimulados a desenvolver suas habilidades para fazer algo de bom para o próximo vemo-los imensamente motivados e felizes. É claro, pois com isso se desvenda diante deles a chave de funcionamento de seus corações.

Que ninguém nos seja indiferente. Se soubermos desenvolver esse modo de olhar a todos que nos circundam veremos que não há pessoas essencialmente más. Há, isso sim, aqueles que por um motivo ou outro não foram ou não quiseram ser amados, e outros tantos que fizeram morrer esse amor por não querer manifestá-lo aos outros. Mas ninguém está irremediavelmente perdido. Enquanto viver sempre será possível tocar em seus corações para que passem a ser uma fonte de água viva. Que sejam então pessoas que se sabem amadas por Alguém e que, precisamente por isso, podem dar esse mesmo amor que recebem sem medida.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Amar com os defeitos

Certa vez ouvi de uma pessoa casada há poucos anos o seguinte desabafo:
“Durante o período de namoro, eu estava convencido de que ela não tinha defeitos. E isso nem tanto porque minha então namorada fizesse um esforço grande por ocultá-los ou dissimulá-los, mas porque os tempos que passávamos juntos eram os melhores do dia. Depois do casamento, porém, os defeitos dela começaram a se apresentar com uma insuportável clareza. E, como não havia reparado neles antes, fico desconcertado, pois desfiguram a imagem que havia feito dela. Pior, como os defeitos dela não são os mesmos que os meus, parecem tão fáceis de serem superados que chego a pensar que ela faz tais coisas de propósito, só para me irritar”.
Todo ser humano tem defeitos. Isso é óbvio. Por que será, então, que se atribuiu a algo que é evidente a causa do insucesso de muitos casamentos? E qual seria a solução? Buscar que os jovens que se preparam para a vida matrimonial estejam mais atentos na fase de namoro? Ou tentar dar menos importância a eles quando afloram já na vida conjugal?
O primeiro aspecto é importante. Os pais deveriam acompanhar de perto os filhos quando começam a manter algum relacionamento, estimulando-os a conhecer melhor o outro e não simplesmente curtir a emoção de estar juntos. Apesar disso, será sempre limitado o poder de influência dos pais nessa situação. Quem nunca ouviu uma frase do tipo: “Ela está cega! Será que não vê que esse rapaz não serve para ela?”. E se fica cego mesmo. Mas apesar disso, podemos ajudar, com carinho e compreensão, a tentar colocar um pouquinho de racionalidade e senso de observação numa relação que parece ser apenas emoção.
Aliás, se quisermos dar um bom conselho para quem caminha para um relacionamento conjugal, podemos dizer que só há um defeito incurável: pensar que não tem defeitos. É que a pessoa que não reconhece que os tem e que precisa continuamente melhorar não pode ajudada, precisamente porque ela se fechou na sua auto-suficiência.
E o que dizer àqueles que já estão casados e que convivem diariamente com os defeitos do outro? Nesse caso, a primeira atitude é fomentar a compreensão. Costumamos ser implacáveis com os defeitos dos outros e extremamente complacentes com os nossos. Além disso, é frequente medirmos os outros com as nossas próprias medidas. Por exemplo, o marido que é habitualmente pontual, costuma lançar contra a esposa essa acusação: “Não me conformo como você possa se atrasar sempre! É tão simples, basta que comece a se arrumar com mais antecedência!”. E ela, por sua vez, poderá dizer algo semelhante: “Você deixou a sua carteira jogada na mesa da sala de novo! É tão difícil colocar isso no lugar?”
Não é tão simples, ao contrário do que pode parecer. Soube de um marido que colou um adesivo brilhante na carteira para se lembrar de a guardar no lugar certo quando chegasse a casa. E de uma esposa que, com a ajuda do filho, editou algumas planilhas do Excel onde elencava o tempo de cada ação e, no final, a soma. Com isso, sabia que para um casamento a primeira ação começava duas horas antes, para buscar os filhos na escola, trinta minutos... Esse marido se encheu de compaixão e ternura ao ver as planilhas afixadas no quadro de avisos da casa. E também ela, por vezes, não escondia o sorriso carinhoso ao guardar a carteira dele no lugar, apesar do enorme aviso luminoso...

O grande desafio que os esposos encontram quando se deparam com os defeitos do outro é aprender a amá-lo(a) apesar desses defeitos, ou melhor, a amar com esses defeitos. É claro que se poderá ajudar a melhorar, mas sempre com carinho, compreensão e sabendo agir na hora certa. Mas o mais importante é reconhecer que também não somos perfeitos. E é somente quando travamos uma batalha séria contra os nossos próprios defeitos é que saberemos de verdade a ter compaixão com os demais, sobretudo com aquela pessoa com quem nos comprometemos a formar uma comunhão plena de vida.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

O legado de José de Alencar

Faleceu na última terça-feira, dia 29 de março, o ex-vice-presidente José de Alencar. Esse grande homem tem sido frequentemente lembrado como um exemplo de luta contra o câncer. Mas será que o faremos justiça se assim o considerarmos, ou se nos ativermos apenas a esse legado que nos deixou?
Quanto se diz que o objetivo primordial de uma pessoa, ainda que num determinado momento de sua vida, é o combate a uma enfermidade que a acomete, corre-se o risco de pensar que se trava uma batalha apenas para permanecer vivo e nada mais. Não que a vida não seja um bem em si, nem que lutar por ela não seja algo que valha a pena. Mas os grandes homens têm sempre algo mais. “Viver por quê e para quê?” é uma indagação que se há de fazer quando pretendemos entender a fundo exemplos de heroísmo em situações de extrema dificuldade.
“Se Deus quiser me levar, Ele não precisa de câncer. Se Ele não quiser que eu vá, não há câncer que me leve”. De certo modo, Alencar debochava da doença. Dava a esse fato a importância que ele merece. Tomava os cuidados médicos e buscava com prudência o tratamento adequado. Mas soube conviver com ela, ou melhor, viver apesar dela. E isso somente é possível nas pessoas que sabem que têm uma missão a cumprir.
Há alguns anos tomei um táxi e o motorista, em poucos minutos, contou o drama de sua vida. Havia conseguido juntar um certo dinheiro, comprara uma chácara, próxima a um lugar privilegiado para a pesca e, com o que recebia de aposentadoria, podia levar a vida apresentada como um modelo de felicidade e realização em nosso tempo: pescar pela manhã, descansar numa rede pela tarde e, de noite, bebericar, ouvir uma música ou simplesmente contar as estrelas de papo para o céu. “Mas tudo isso enjoa”, disse ele, e por isso resolveu voltar a trabalhar enquanto ainda buscava um sentido para os últimos de seus dias...
Dedicamos uma grande parte do nosso tempo no desempenho de um trabalho profissional. O estudante sério haverá de ser dedicado e diligente nos estudos, consciente de que tem uma dívida com a sociedade que lhe proporciona os meios para obter o conhecimento. De igual modo, o lixeiro, o lavrador, o operário, o empresário, o funcionário público, todos têm um ofício que direta ou indiretamente está destinado a fazer algo de útil para os outros. E todos temos aí uma importante missão.
Mas ela não se limita ao trabalho profissional. É possível que chegue um momento em que deixaremos de exercê-lo, e então poderemos dedicar mais tempo a alguma atividade assistencial, por exemplo.
A nossa missão se desempenha também muito especialmente na vida familiar, no cuidado com a esposa, com o marido, com os filhos, com os pais, com os amigos, enfim, com todos os que pelos mais variados motivos se colocam na nossa existência como o próximo.
Tive a sorte de conhecer um grande homem que soube cumprir a sua missão até o último minuto. Estava ele com uma doença incurável no hospital e, como era muito querido, recebia várias visitas. Certo dia, disse à enfermeira que o atendia: “Você sabe que sou um homem muito rico?”. Ela, sem deixar de mexer na injeção que aplicaria, respondeu: “ah, é?”. E o amigo concluiu: “a minha riqueza é a minha família: tenho muitos filhos, muitos netos e alguns bisnetos que agora me acompanham neste momento”. A enfermeira ficou muito impressionada em ver como ele vivia aquela situação terrível. Dias antes de morrer, a enfermeira veio ter com ele e disse: “Eu gostaria de lhe agradecer. É que estou grávida e estava pensando em fazer um aborto. Mas, vendo o senhor com essa alegria e serenidade nesses momentos, eu voltei a acreditar na vida”.

Exemplos como esse, ou como do já saudoso ex-vice-presidente, devem ressoar para nós como um chamado a aproveitarmos muito bem cada minuto de nossa existência, ciente de que nada nela é em vão e que “tudo vale a pena, se a alma não é pequena”.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Matrimônio e filiação

Introdução
É significativo hoje em dia o número de pessoas que optam por se casar sem a intenção de ter filhos. Diante desse cenário, e analisando a questão sob uma perspectiva antropológica, é oportuno indagar se os filhos são livre decisão do casal, que então poderiam optar por tê-los ou não sem que isso interfira na relação conjugal ou se, ao contrário, o casamento está naturalmente orientado à geração e educação da prole.
Indagações dessa envergadura não podem ser adequadamente enfrentadas sem que voltemos o olhar para a natureza humana. O que são a mulher e o homem em sua essência?
É inegável que uma pergunta dessa magnitude não permite respostas simplistas. Mas se nos lançássemos sem maiores rodeios ao núcleo da questão, o que mais acentuadamente caracteriza o ser humano é o amor. E isso ao menos em dois aspectos, quais sejam, de ser ele o resultado de um ato de amor e, ao mesmo tempo, o anseio profundo de orientar a sua vida para o amor.
O amor nas origens do ser humano
Nenhum ser humano consegue manter uma existência minimamente equilibrada sem sentir-se e ser de fato amado. Essa realidade se mostra presente, ainda que com diferentes matizes, nas mais diversas fases da nossa vida. O homem maduro precisa sentir-se amado por sua esposa, por seus filhos, estimado e respeitado em seu ambiente de trabalho e no seu círculo de amizades. O jovem, igualmente, sente a necessidade vital de ser amado por seus pais, reconhecido e valorizado entre os seus amigos. Quando falta de maneira significativa essa aceitação (no fundo o que se almeja é o amor) provavelmente estaremos diante de uma pessoa insatisfeita e infeliz.
Esse anseio por ser e se sentir de verdade amado se projeta em cada ser humano muito especialmente para as suas origens. Uma prova disso está no empenho que fazem as pessoas que não foram reconhecidas pelo pai em encontrá-lo, conhecê-lo e, se possível, estabelecer com ele uma relação minimamente filial.
Mas mais que isso, todo filho deseja que pai e mãe se amem. Certa vez um garoto de sete anos, que vivia numa família bem constituída, presenciou uma pequena discussão entre os pais. Em seguida, com os olhos cheios de indignação disse ele ao pai: “prefiro mil vezes que você brigue comigo do que trate a minha mãe dessa forma”.
Quando sustentamos que o ser humano anseia vislumbrar em sua origem um ato de amor, talvez uma grande objeção que se levante é que muitos homens e mulheres durante toda a história da humanidade, mas sobretudo em nosso tempo, não nasceram em um lar formado por genitores que se amam. É verdade. Mas é igualmente verdade que se está em débito com esses milhares de seres humanos a quem não se é respeitado esse direito fundamental de nascer no seio de uma família.
Aliás, tanto mais humana será uma sociedade quando maior for a sua capacidade de se estruturar para suprir a ausência desse amor que deveria envolver a vinda de um novo ser ao mundo. Fala-se em adoção, família extensa, entidades de abrigo, como formas de suprir a existência de um lar naturalmente formado pelo pai, pela mãe e sua prole. E de fato pode-se criar uma rede de acolhimento capaz de cercar de imensos cuidados a criança e o adolescente. Mas tudo isso será sempre paliativos se comparado com o que lhe proporcionaria um pai e uma mãe que se amam e nesse amor se doam entre si e aos filhos.
O amor com fim da existência humana
Se a ausência de amor na origem do ser humano pode ser suprida, ainda que de modo imperfeito, por outras manifestações de amor que se desenvolvem no decorrer de sua vida, nada pode suprir o seu anseio por ser no mundo manifestação desse mesmo amor pelos outros. Ignorar esse dado é lançar fora toda possibilidade de realização enquanto homem ou mulher.
Diz-se que o homem é um ser social. Com essa expressão, contudo, muitas vezes pensamos que dependemos dos outros e por esse motivo vivemos em sociedade. É verdade, há uma mútua dependência entre os seres de uma comunidade. No entanto, essa dependência é, sobretudo, de superabundância. Ou seja, mais que extrair dos outros a satisfação de nossos interesses, precisamos de nos doar desinteressadamente.
Nesse ponto, talvez nos deparemos com outro problema de razoável fundamento antropológico. É que esse anseio por atuar no mundo em que está inserido buscando o bem do próximo (amor de benevolência) não é algo que brota espontaneamente no agir concreto das pessoas. Bem ao contrário, é comum encontrar homens e mulheres atuando nos mais diversos ambientes buscando exclusivamente os interesses pessoais, ainda que em detrimento daqueles com quem convivem. Diante disso, como sustentar ser o amor um anseio natural no ser humano?
Convém não confundirmos, porém, natureza com espontaneidade. Muito se prega como modelo de conduta a naturalidade, como tal entendido que se deva agir em cada situação da maneira que nos é mais aprazível, vale dizer, deve se dar rédea solta ao que nos ditam os instintos a cada momento. Se se quer comer um doce, come-se, com as cautelas para não engordar. Se se sente uma atração por uma colega ou um colega de trabalho, não há porque reprimir esse impulso...
Acontece que é um fato também inegável que esse agir com “naturalidade”, dando vazão aos instintos, “enche” as pessoas de um grande vazio existencial. E o motivo disso está em que o bem para o qual está orientada a natureza humana nem sempre é aquele que se nos desenha como mais apetecível. Não há uma necessária e inexorável contradição entre o amor de benevolência, que há de nortear as nossas vidas, e os instintos. Mas é aquele e não esses o elemento seguro a nos guiar em busca da realização.
Assim delineada a vocação universal do ser humano para o amor, convém que agora nos deparemos com uma modalidade bem peculiar dessa mesma realidade que se estabelece na união conjugal.
Os filhos e o amor conjugal
Embora o amor conjugal esteja inserido na mesma realidade do amor, apresenta matizes que o distinguem das demais manifestações. Trata-se de uma realidade fortemente marcada pelo sentimento. Há uma natural atração entre o homem e a mulher que os levam a buscar a convivência e a unir suas vidas. Mas ainda que muito intenso, a realidade do amor conjugal não se limita a esse sentimento. Ele é, no mais das vezes, um importante atrativo para uma decisão a ser tomada: a de cada um se doar ao outro, num compromisso formal que, a partir do momento em que contraído, unirá duas vidas de maneira intensa e perene.
O casamento, diz o Código Civil brasileiro, instaura a comunhão plena de vida. Ora, é evidente que essa comunhão plena de vida não pode ser o mero resultado de uma atração sensível, a ser desfeita ao sabor dos vaivéns dos sentimentos. Uma vez contraído o pacto matrimonial, que se traduz essencialmente na doação que cada um faz de si próprio ao outro, estabelece-se um vínculo que é também sentimento, mas que exige agora um comprometimento da vontade no sentido de querer querer a pessoa do outro que se nos doou incondicionalmente e a quem nos doamos também numa entrega que abarca toda a dimensão conjugal.
Essa entrega que tão acentuadamente caracteriza a união conjugal não se limita à sexualidade, mas é ela parte integrante e importantíssima. A comunhão plena de vida que se instaura no casamento implica a ajuda mútua, a convivência no lar conjugal, mas também as relações sexuais. E essas são também expressão desse amor de benevolência. Aliás, é um exemplo marcante de que não há contradição necessária entre o prazer e a busca do verdadeiro bem. Com efeito, ao mesmo tempo que intensamente prazerosa, nela se materializa muito especialmente a entrega de cada um pelo bem do outro.
Portanto, o casamento se orienta naturalmente para a geração e educação dos filhos. Como dizíamos, o ser humano busca em sua origem um ato de amor, assim como somente encontra a sua realização orientando a sua vida para o amor. Logo, o lar constituído por um homem e por uma mulher que se amam é como que o habitat natural para que o ser humano nasça e se desenvolva. Nenhum outro ambiente está tão bem disposto para acolher uma vida como aquele formado por um casal que se uniu por amor e está disposto a se amar cada vez mais.
O casamento fechado à procriação é uma contradição em termos. Quando o homem e a mulher se doam um ao outro em matrimônio por amor, nessa doação recíproca já se constrói naturalmente o ambiente mais adequado para que uma nova vida venha ao mundo.
Ora, excluir a geração e a educação dos filhos da união conjugal seria o mesmo que privar a realização desse mesmo amor em seus dois aspectos. Ou seja, não será ele fonte de vida que possa depois encontrar naquele ato de amor o fundamento de sua existência, nem expressão de um amor verdadeiro que, por ser entrega incondicional, se abre à vida.
A pretensão de se unir em matrimônio sem se abrir à procriação seria o mesmo que uma fonte que busca água límpida nas profundezas da terra mas que se nega a jorrá-la na superfície. Não seria uma fonte verdadeira porque ao movimento de captar há de se seguir inexoravelmente o de transbordar. Com as imperfeições que toda analogia traz em si, pode-se dizer que unir-se em matrimônio por amor, mas negar a essa união a sua aptidão natural para ser fonte de vida, que é amor, é uma incoerência terrível, que faz secar a própria fonte do amor. Com isso, homem e mulher passam a buscar no outro um mero instrumento para satisfação de interesses pessoais. Mas isso não é amor, mas uma relação predatória que perdura enquanto subsistir no outro os atributos que se pretende explorar para haurir satisfações egoístas.
 “O meu egoísmo é tão egoísta que o auge do meu egoísmo é querer ajudar”, canta poeticamente Raul Seixas. Um dia, num olhar, num gesto, numa palavra, encontramos a pessoa que dentre inúmeras outras fez pulsar o coração, fraquejar as pernas e cintilar os olhos. Um pouco depois, adentramos em sua intimidade e então podemos exclamar: “é ela” (ou “é ele”). E eis que, agora não apenas com o coração, mas também com a razão lhe dizemos “SIM”. Então não mais apenas a queremos (ou o queremos), mas queremos querer essa pessoa cada vez mais. Mas esse querer e esse amar são tão intensos que não cabem apenas no outro. Como tudo o que é abundante, transborda. Os filhos, são, pois, esse transbordamento de amor que não poderia ficar fechado em dois corações apenas. E assim segue o amor em sua dinâmica magnífica de ser fonte da vida, que curiosamente se orienta para o mesmo amor. 

Esse amor que se vislumbra na origem e que se orienta como fim da existência humana não se resume a um sentimento. Ainda que tenha frequentemente manifestações sensíveis, desenha-se também como um ato da vontade e se manifesta em querer o bem daqueles a quem se ama. Em suma, o ser humano tem um anseio irreprimível de se ver a si próprio como produto de um ato de amor e de orientar a sua vida para ser no mundo em que está inserido uma manifestação desse amor para com todos aqueles com quem convive.