terça-feira, 22 de setembro de 2015

Onipresença Eletrônica


Outro dia, pela manhã, enquanto trabalhava, ecoavam os alertas sonoros do celular de sms, Whatsapp e e-mails recebidos. Tive então a ideia de fazer um experimento: o que aconteceria se atendesse prontamente a cada um desses chamados? 
Comecei pelas mensagens. Bem, essas estão caindo em desuso, pelo que não foi muito demorado. Já o whatsapp... Ufa! Quem me colocou em tantos grupos? Mas vamos lá. Li uma a uma as mensagens pendentes, o que cada um comentou e, timidamente, fiz um ou outro breve comentário. Depois os e-mails. Bem, quanto a esses, vou desconsiderar os atrasados, pois, do contrário, não faria outra coisa a manhã toda. Dediquei então a ler e a responder apenas os recebidos hoje.
 A conclusão foi alarmante: em uma hora somente foi possível dedicar quinze minutos ao trabalho e, mesmo assim, devido às constantes interrupções, com uma produtividade medíocre.
Por uns instantes pensei que isso seria um problema exclusivo de quem exerce atividades intelectuais. Mas não! Basta observar um pouco e veremos mesmo entre trabalhadores mais simples, que exercem atividades manuais, como também se dedicam com assustadora frequência a deslizar rapidamente o polegar sobre a tela de um smartphone. Nem quero nem considerar, por ora, o trabalho insano que deve desenvolver o professor em sala de aula para manter a atenção dos alunos...
Meditando em como esses equipamentos eletrônicos nos mantém conectados com tudo e com todos, vêm-me à memória, com certa dose de saudosismo, o que aprendíamos nas primeiras aulas de catecismo: “Quem é Deus? Resp.: Deus é um ser onipotente, onipresente e onisciente...”.
Penso que, de certo modo, as modernas tecnologias nos sugerem a possibilidade de obter esses mesmos dons da onipotência, onipresença e onisciência. Com efeito, podemos tudo, pois, com um simples tocar na tela do equipamento temos o mundo ao nosso alcance e ao nosso dispor. Também se nos dá a possibilidade de estar em qualquer lugar do mundo, assim como de nos comunicarmos a um só tempo com pessoas que se encontram em qualquer lugar do planeta. E, mesmo que não saibamos tudo, com uma ferramenta de pesquisa podemos descobrir qualquer coisa, ainda que superficialmente, em poucos segundos.
Acontece que, apesar da sensação de plenitude que esses equipamentos nos proporcionam, temos inexoravelmente de nos render a uma realidade inquestionável: só conseguimos fazer uma coisa de cada vez. E então, como lidamos com um mundo que nos proporciona infinitas possibilidades de comunicação e relacionamento com essa limitação humana elementar?
A virtude da ordem sempre foi importante, ainda que um tanto esquecida. Nos dias atuais, porém, tê-la presente e buscar aprimorá-la é questão de sobrevivência. Ao contrário do que parece, porém, ela não é apenas uma ferramenta destinada a programar melhor as atividades do nosso dia, ou mesmo a organizar melhor os nossos objetos, mesa de trabalho, guarda-roupas, ou ainda a ter uma agenda de compromissos revisada periodicamente. Esses aspectos são relevantes, porque nos fazem aproveitar melhor o tempo, mas, em si, não são suficientes.
A ordem há de ser, antes de tudo, uma escolha interior. Algo que brota da resposta às seguintes indagações: quem sou eu? De onde vim? Para onde vou? Assim, se enfrentamos com valentia esses questionamentos, veremos que temos uma missão neste mundo e um destino eterno. Sob essa perspectiva é que devemos escolher – porque somos livres – o que convém e o que não convém a cada minuto das nossas vidas.
Poderemos, por exemplo, gastar nosso tempo nos distraindo com bobagens que nos agradam no Facebook, ou, talvez utilizando da mesma ferramenta, procurando alentar, estimular, compreender e acolhendo algum amigo, parente, conhecido que passa por uma dificuldade. Tudo depende, como sempre, do sentido que estamos dando a cada minuto das nossas vidas.
E você, cara leitora, caro leitor, por onde anda “navegando” nesse mundo real e virtual? Ao respondermos a essa pergunta, convém não esquecer que naquilo em que empregamos o nosso tempo é, frequentemente, onde está o nosso coração.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Orientação Familiar

Durante muito tempo o homem foi considerado a cabeça da família. O Código Civil brasileiro de 1.916 expressamente consagrava o marido como chefe da sociedade conjugal. As últimas décadas, porém, foram marcadas por uma significativa mudança do papel da mulher na família, no mercado de trabalho e em toda a sociedade.

Não há mais, portanto, uma autoridade única na família. A mudança foi muito oportuna e veio a ressaltar e enaltecer a imensa dignidade da mulher. No entanto, essa conquista traz também um problema, que requer uma solução adequada. Para melhor compreendê-lo, imaginemos uma empresa em que houvesse dois Diretores Presidentes, ambos exercendo a mesma função, munidos dos mesmos poderes e sem uma delimitação clara de atribuições de cada um. É muito provável, nesse caso, que as situações de conflitos surgissem em breve, fazendo-se necessário estabelecer uma sintonia entre eles para cada um exercer um papel definido de modo a que conseguissem juntos administrar bem o empreendimento.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Aprender a descansar

Há quem se orgulhe de dizer que nunca tirou férias. E o fazem esperando que formem um conceito de si mesmo como de uma pessoa muito laboriosa, tanto que se dedica a trabalhar, anos e anos, sem uma interrupção sequer. Outros, talvez menos radicais, até admitem a necessidade de dedicar um tempo para o descanso, porém, não sabem exatamente como descansar ou o que fazer com o tempo livre.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Segregar ou segregar-se é a solução?

Conforme Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen),
divulgado no dia 23 de junho pelo Ministério da Justiça, o Brasil aumentou a sua população carcerária em 33% entre 2008 e 2014. Ocupamos o 4º lugar no mundo, com
607.731 pessoas em situação de privação de liberdade em junho de 2014. E, o que talvez seja mais alarmante, Estados Unidos, China e Rússia apresentaram redução no mesmo período, o que nos coloca na contramão do que vem ocorrendo entre os países com as maiores populações prisionais.
Esses dados revelam uma tendência que está se instalando entre nós de resolver os problemas de segurança quase que exclusivamente com a segregação de pessoas, pouco se fazendo para atacar a raiz do problema. Ou seja, como há indivíduos que perturbam a paz dos demais com os seus delitos, a solução superficial encontrada é simplesmente afastar tais indivíduos do convívio social, de modo que, ao menos enquanto estiverem presas, não voltarão a incomodar.
No lado oposto disso, também podemos observar a enorme proliferação de condomínios de casas e apartamentos cercados por muros, cerca elétrica, câmeras de segurança, portarias com um rigor quase militar no controle de acesso etc., tudo para vender uma sensação de estar seguro e que, naquele reduto, todos podem ficar tranquilos. Embora de modo bem diverso, impera aqui a mesma lógica segregacionista, que leva a se fechar e viver isolado como instrumento de defesa.
E isso não é mais privilégio das pessoas e famílias mais abastadas. Há um crescente número condomínios de casas que disputam um espaço diminuto entre si, de modo a permitir que os custos dessa parafernália de segurança possam caber no bolso de cada um. E como é quase apenas isso que os une, a paz tão almejada não tardará em ser perturbada por brigas enormes e constantes, muitas delas motivadas por ninharias, que marcam as pautas das intermináveis e enfadonhas reuniões de condomínio...
O problema está em que cada vez mais se vê no outro, no vizinho, por exemplo, alguém que devemos no máximo suportar. Já que não nos é possível comprar sozinhos todo um aparato de conforto e segurança, esse sujeito que mora ao lado é apenas alguém com quem divido as contas dessa comodidade.
Tratam-se, porém, de soluções que buscam mitigar os efeitos, mas não atacam a causa do problema. E a sua raiz mais profunda está no individualismo exacerbado que nos move a procurar no outro apenas a satisfação de interesses, no mais das vezes egoístas.
Nesse contexto está a desagregação da família. É que um relacionamento autenticamente conjugal pressupõe o sacrifício para fazer o outro feliz, construindo no amor e no compromisso a vida familiar. Se, porém, cada um busca no outro apenas uma fonte de satisfação sexual, afetiva etc., quando não mais se consegue sugar nela (ou nele) tais utilidades, simplesmente se parte para outros relacionamentos, deixando famílias esfaceladas e, não raras vezes, filhos desorientados e perdidos.
Solução? “A educação” – talvez muitos dirão. E penso que é isso mesmo. Não basta, porém, ensinar matemática, língua portuguesa ou história para curar essa doença social, até porque muitos individualistas que perambulam entre nós são eruditos e doutores nessas e noutras disciplinas acadêmicas. É necessário formar, a partir da família e também na escola, essa como um prolongamento daquela, pessoas peritas em humanidade, que conheçam a fundo o coração da mulher e do homem, suas carências, seus valores, seus anseios, enfim, que encontrem um sentido profundo para as suas vidas.

Esses “doutores”, pós-graduados no amor vivenciado por seus pais no seio de uma família, saberão encontrar e atacar as raízes da criminalidade, quase sempre relacionadas com carências, não apenas econômicas, mas, sobretudo, afetivas e espirituais. E também não precisarão “comprar” a um elevado custo uma sensação de segurança. Simplesmente saberão encontrá-la na verdade, por saberem de onde vieram e para onde irão pelos atribulados caminhos desta vida.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Ideologia de gênero: apoiar ou discriminar?

       Minha sogra costuma contar que quando era criança não entendia por
que se aguardava tão ansiosamente para saber o sexo de um bebê. Dizia ela: “Ora, se quer que seja menino, ao nascer, coloque nome de menino; se quer uma menina, dê a ela um nome de menina e coloque nela roupinhas cor-de-rosa”.

       Parece que essa história pueril e divertida de uma menina inocente foi apropriada por uma concepção do ser humano cujos fundamentos estão muito longe da inocência e da pureza de uma criança. A ideologia do gênero, em suma, propõe precisamente isso: não há diferenças naturais entre homem e mulher; são os adultos e a sociedade que impõem padrões de comportamento.
É preciso reconhecer que muito do modo de ser masculino e feminino é ditado por puras convenções sociais. Por exemplo, trata-se de um costume, ainda que construído há séculos no ocidente, que as mulheres usem saia ou vestido, ao passo que somente o homem vista terno e gravata em ocasiões mais solenes. O mesmo se diga da cor azul ou rosa que predominam no enxoval de meninos e meninas. Tudo isso é mesmo acidental e mutável de acordo com a cultura e o contexto histórico e social.


       No entanto, nem tudo o que marca um ser humano como homem ou mulher é definido pelo contexto social. Há fatores inatos, dados pela própria natureza, que a sociedade simplesmente reconhece. Essas diferenças entre homem e mulher não estão só no aspecto físico ou biológico. Esse é o mais evidente. Estudos apontam, porém, que o próprio funcionamento cerebral é diferente no homem e na mulher. A dimensão afetiva apresenta também notórias diferenças conforme o sexo da pessoa. Em suma, homem e mulher são fundamentalmente diferentes em todas as suas dimensões. E isso não é o produto de uma construção social, mas algo que decorre da própria natureza.


       Isso não implica uma hierarquia que permita afirmar ser um mais que o outro, mas simplesmente diferentes. Todos os seres humanos são absolutamente iguais em dignidade, o que se manifesta, porém, em cada existência concreta apenas de dois modos bem distintos: homem ou mulher. Não há um terceiro, quarto, ou infinitos gêneros, mas simplesmente dois sexos.

       Como consequência disso, o amor genuinamente conjugal é somente aquele que se estabelece entre um homem e uma mulher, ainda que possa haver outras formas de amor entre pessoas do mesmo sexo (entre amigos, pais e filhos, irmãos etc.). Isso porque o amor conjugal é vivo e fonte de vida, de modo que aponta para uma natural fecundidade. Além disso, pressupõe uma natural diferença entre os cônjuges, posto que somente realidades diferentes se complementam num todo harmônico, cada um dando ao outro precisamente o que esse não tem. E esse amor não é só sentimento, mas exige o compromisso de se querer amar o outro cada dia.

       É necessário reconhecer, porém, que há certo número de indivíduos, homens ou mulheres, que apresentam atração erótica por pessoas de mesmo sexo. E esses sempre foram alvo de discriminação, ainda que atualmente isso tenha mudado.

       Eis o cenário em que aflora a ideologia do gênero. O homossexual é discriminado e humilhado pelos seus semelhantes. Solução: pregar uma concepção assexuada de ser humano; homem e mulher serão, então, considerados meras construções sociais que precisam ser abolidas.
Acontece que isso não encontra nenhum fundamento na natureza humana. Trata-se de um engenhoso raciocínio que, a pretexto de eliminar a discriminação contra os homossexuais, se levado à prática, acabará por matar em cada pessoa a sua própria identidade, inexoravelmente marcada e definida pelo sexo.


       Não é necessário – nem possível – modificar a natureza humana para não discriminar o homossexual. Ao contrário, é preciso atacar toda forma de discriminação em sua causa mais profunda, que é o desrespeito à infinita dignidade de cada indivíduo. Devemos ter olhos que saibam enxergar em cada semelhante simplesmente um ser humano. Trata-se de saber se colocar no lugar do outro e então valorizar e afirmar a vida. Mas isso se faz promovendo cada pessoa tal como ela é, não com uma vã e artificial tentativa de arrancar-lhe a sua identidade sexual, que outra coisa não é que aniquilar a sua própria dignidade.