sexta-feira, 13 de março de 2020

Dia da Mulher.


O último domingo foi o dia da mulher. Muitos de nós talvez tenhamos lido, em especial nas redes sociais, homenagens que ressaltam os inúmeros percalços que se passou e quanta luta se travou para alcançar a tão sonhada igualdade de direitos e oportunidades.
Hoje a sociedade muito se beneficia com a presença da mulher nos mais diversos setores. A sua criatividade e o seu gênio feminino transmitem à empresa, às repartições públicas e todos os ambientes de trabalho um tom mais humano e acolhedor.
Apesar desse avanço, hoje se desenha uma discriminação talvez mais injusta e cruel. É que se lhes impõe o sucesso profissional como um objetivo a ser alcançado a qualquer custo, inclusive e principalmente com prejuízo da maternidade. Com efeito, é assustador o número de mulheres que são demitidas pouco tempo após retornarem da licença-maternidade.
Há ainda, na mesma linha, outra discriminação que se impõe àquelas que optam por dedicar as suas vidas – ou alguns anos dela – exclusivamente à educação dos filhos e ao cuidado da família. Com a expressão pejorativa de “do lar” anotada como profissão, são frequentemente tratadas como profissionais de terceira ou quarta categoria.
É preciso reconhecer, porém, que se todos trabalhos desempenhados pela mulher devem ser valorizados e respeitados, tanto mais respeito e admiração deveriam ser tributadas àquelas que livremente optam por se dedicar exclusivamente à educação dos filhos e cuidado da família. É cientificamente provado que a presença da mãe nos primeiros anos de vida é fundamental para o desenvolvimento sadio da criança. Além disso, a mulher sabe como ninguém construir um ambiente de carinho e ternura, ingredientes indispensáveis para fazer de uma casa um lar. E toda a sociedade se beneficia com isso.
 E se todos nos beneficiamos com o trabalho da mulher nos mais diversos ambientes, é justo que lhes asseguremos as condições para que possam desempenhar essa sublime missão na qual serão sempre insubstituíveis. Isso porque, governantes, parlamentares, magistrados, empresários, médicos e todos os trabalhadores, mulheres ou homens, somente podem exercer esse papel na sociedade porque um dia foram acolhidos no colo por uma mãe.
Essas dóceis guerreiras, artífices fundamentais na construção de uma nova civilização, recebam os nossos parabéns e o nosso reconhecimento. Porém, que isso não fique somente em palavras, mas se traduza em gestos concretos de cooperação, apoio, valorização e amor!

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Deixar fazer


- Mãe, posso assistir TV agora?
- Agora não – responde a mãe.
Ao contemplar esse diálogo, muitas mães e pais ficarão com a impressão de que está incompleto. Ou a filha irá perguntar: “o que posso fazer, então?” ou a própria mãe irá se adiantar propondo que façam alguma coisa. Mas será isso necessário? Precisamos estar todo tempo sugerindo algo que façam?
Para as gerações que foram criança décadas atrás era impensável esperar que os pais nos dissessem com que poderíamos nos divertir no tempo livre. Verdadeiramente não era problema deles. Talvez por isso escalamos árvores perigosamente, andamos sobre muros, cavalgamos, em suma, fomos protagonistas da nossa própria existência.
Atualmente, colocamos as filhas e os filhos como centro das atenções nas nossas famílias. Mais ainda, damos a elas e a eles o direito de esperar de nós, pais, a cada instante, o que hão de fazer. Como consequência, ficamos estressados. De fato, como não ficar esgotado quando nos atribuímos um suposto dever de entretê-los(las) o todo tempo? Com essa postura, são a escola, as atividades extracurriculares e os equipamentos eletrônicos que nos dão uma trégua. Quando estamos em casa, porém, estão lá esses “pequenos imperadores” a reclamar a atenção o tempo todo.
Acontece que, com essa postura tão difundida nos pais de hoje em dia, as nossas filhas e os nossos filhos crescem acostumados a serem estimulados por alguém ou por algo (TV, computador, smartphone etc.), de modo que estão sempre esperando que lhes ofereçam alguma coisa a fazer ou com que se divertir. Com isso, perdem o protagonismo das próprias vidas.
Muitos dirão que, atualmente, há mais problemas de segurança, que nas grandes cidades as crianças e mesmo os jovens não podem se deslocar sozinhos, de modo que isso seria um fenômeno inevitável. De fato, isso é assim mesmo. Mas a questão de fundo não são os fatores externos, ou seja, o ambiente em que se desenvolvem, mas a nossa postura enquanto educadores e, por consequências, as expectativas que transmitimos a eles.
Assim, podemos morar em apartamento, ou em casa da qual não podem sair sozinhos por motivo de segurança, mas, no espaço em que se desenvolvem, a partir de determinada idade, devem buscar eles próprios com que brincar, como se relacionar com irmãos, com os amigos e com os vizinhos. Em suma, que não sejam sujeitos passivos, que a todo o momento aguardam que venha um smartphone, uma TV ou uma mãe trazer pronto o que podem ou devem fazer.
Quanto à pergunta daquela criança que fizemos acima, esclareço que, pouco tempo após, ela se organizou com a irmã e com mais uma amiguinha e montaram um “centro cirúrgico” na sala de TV, que permaneceu desligada, é claro. A brincadeira perdurou por horas, sendo substituída por outra e mais outra, fomentando a criatividade, espírito de iniciativa e, principalmente, uma postura ativa no sentido de descobrir o mundo e o ambiente em que vivem.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Podemos fazer um 2020 melhor?!


Você já reparou como corremos de um lado a outro nesses dias que antecedem o Natal e a chegada do Ano Novo? Qual será o motivo de tanto ativismo nesse tempo?
Penso que um dos motivos é a falsa esperança que temos de que até o último dia do ano iremos resolver todos os nossos problemas. É evidente que isso é uma ilusão. No entanto, muitas vezes agimos como se não o fosse. Com efeito, nos propomos metas no trabalho que precisam ser atingidas, um conserto no carro ou na casa, que têm de ser feitos ainda neste ano. Por vezes será um problema familiar, o direito de visitas a uma filha ou a um filho, negligenciados por vários meses, mas que precisamente agora queremos retomar...
É momento de colocarmos uma dose de realismo nos nossos projetos. Não estraga esses momentos festivos considerar que, no primeiro dia do novo ano, os nossos problemas continuarão lá, tal como os deixamos no ano que findou. Aliás, poderão estar ainda piores, se agravados pela ressaca ou, se nesse tempo de festas, procuramos pensar apenas em nós mesmos e na nossa diversão, esquecendo-nos dos demais. Nesse caso, o primeiro de janeiro nos surpreenderá com a amarga tristeza que marca a vida dos egoístas.
A propósito, poderíamos fazer um exercício mental de considerar o que aconteceria se, como num passe de mágica, todos os nossos problemas simplesmente desaparecessem. O que faríamos então? Talvez num primeiro momento nos ocorra pensar que seria uma maravilha, uma espécie de paraíso aqui na terra. Mas sabemos também que isso é uma ilusão, por vezes, muito perigosa.
E isso nunca acontecerá porque não é bom para nós. É que os problemas e as dificuldades são oportunidades que a cada minuto nos são concedidas para sermos melhores como pessoas, enfim, para adquirir virtudes. Por exemplo, se tivermos dificuldade no relacionamento conjugal, talvez seja o caso de nos propormos a sermos mais pacientes, mais generosos, a pensar mais na esposa (ou no marido) e menos em nós mesmos. Se passamos por alguma dificuldade econômica, isso também pode ser ocasião para sermos mais desprendidos dos bens materiais, quiçá considerando que “tem mais, quem precisa de menos”.
Muito ouvimos falar em “ano novo, vida nova”. De fato, esse propósito de virar uma página e começar novamente com ânimo renovado é algo bom. Porém, isso não acontecerá naturalmente e sem esforço da nossa parte. Por isso, é preferível o realismo que poderíamos definir como “ano novo, luta nova”.
Certa vez ouvi de uma pessoa essa afirmação cheia de vibração e de entusiasmo: “eu quero mudar o mundo; nós vamos mudar o mundo!”. E isso, se bem entendido, não é ilusório. É, ao contrário, um propósito cheio de realismo. Não se pode deixar de considerar, porém, os meios que se hão de empregar para atingir esse resultado. E, de certo modo, tudo o que podemos fazer para construir um mundo melhor é mudarmos a nós mesmos, é sermos pessoas mais generosas, mais dedicadas aos demais, em suma, mais virtuosas.
Gosto de recordar aquela imagem – que já compartilhei outras vezes aqui – da pedra atirada num lago sereno ao entardecer. Dessa ação surge uma onda, depois outra, até que todo o lago é atingido pelas ondas. Assim são as nossas boas ações. Alegram aqueles que nos estão próximos que, por seu turno, sentem as boas disposições para replicar essa atitude benfazeja com aquelas e aqueles com quem convivem. E, com isso, constrói-se um mundo melhor ao nosso redor, nos ambientes em que convivemos.
Portanto, que o Novo Ano não chegue com a ilusão de uma tranquilidade fundada na ausência de problemas e na prosperidade, mas com a felicidade e a paz que brotam nos corações daquelas e daqueles que batalham, dia após dia, para construir um mundo melhor!

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Feliz Natal !


Ouvi certa vez que o Natal é um acontecimento alegre para as crianças. Para os adultos, porém, somente aumenta a tristeza por fazê-los lembrar dos tempos felizes da infância. Além disso, aquilo que para os menores era motivo de alegria, como a presença dos primos, dos tios, a ceia e os presentes, para os maiores, não raras vezes, acaba ensejando tensões e dissabores.
Indagando o motivo disso, vem-me à memória a célebre frase de Caetano Veloso, em sua composição Sampa: “É que Narciso acha feio o que não é espelho”. Talvez seja isso o que acontece. As crianças observam o presépio e veem ali refletido claramente o que se passa em seu interior. Os adultos, porém, não mais se espelham naquele acontecimento que, com o passar dos anos, a eles se tornou incompreensível. Com efeito, a cena reflete simplicidade, solidariedade, paz, anseio de vida, tudo facilmente encontradiço nas crianças. Quase tudo, ao contrário, acaba ofuscado nos homens e mulheres que deixaram de ser como as crianças.
Simplicidade. Aquela gruta é magnificamente simples. Falta-lhe tudo, mas, se considerarmos bem, há uma alegria tão intensa que se pode pensar que não falta nada.
Solidariedade. Os personagens que contemplamos são solícitos uns com os outros. O esposo ocupa-se da esposa e ela, dele e do menino que nasceu em um estábulo, junto com os animais. E desse desvelo de uns para com os outros brota um ambiente de terna serenidade.
Conta-se que a madre Tereza de Calcutá, uma eterna criança, uma vez foi observada por uma pessoa (um adulto, por certo), que contemplou o beijo e afago que fazia em um doente de aspecto repugnante. Diante disso, esse homem comentou que “nem por todo dinheiro do mundo faria isso”. E a bondosa religiosa respondeu: “nem eu”. Por dinheiro, tampouco ela o faria.
As crianças veem no presépio três personagens extremamente solidários uns com os outros, e se alegram porque isso reflete o que elas são. Os que deixaram de ser crianças, porém, imersos em seu egoísmo, em um afã desordenado de riqueza, de “status”, de fama, de poder, não conseguem enxergar isso.
Paz. As crianças não se preocupam se haverá peru, se o vinho será suficiente, se a cunhada chegará direto para a ceia e não ajudará na preparação... Nada disso lhes preocupa. Afina, é Natal! Talvez se preocupem um pouco em como quebrar as castanhas, mas não hesitarão em deixar as cascas atrás da porta, agora usada como quebra-nozes.
Anseio de vida. O Menino que se contempla no presépio nasceu para viver. Elas, as crianças, também. Não se sabe se por uns instantes, ou por cem anos. Não importa, todos vêm com uma missão e querem alcançá-la.
Se olhássemos para aquele menino na manjedoura, sabendo de antemão o seu destino, qual seja, uma vida de renúncias, sacrifícios e incompreensões e, ao final, a morte brutal numa Cruz, talvez ocorresse pensar: não vale a pena nascer e viver para isso...
As crianças, porém, não pensam assim. Elas dão a cada minuto um sabor de eternidade. Sabem que o que vale é o instante presente, sem se importar com o anterior, que já passou, nem com o seguinte, que não sabemos se chegará para qualquer um de nós.
A todos aqueles que descobriram a maravilha de ser uma eterna criança, um Feliz Natal!

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

As palmadas na educação


Um tema sempre candente entre os profissionais da educação, com reflexo direto na atuação dos pais e na vida familiar, está no uso dos castigos físicos como técnica pedagógica.
Quando me perguntam se é possível ou aconselhável a palmada na criança em algumas situações, costumo responder, em especial às mães: “Sim, pode dar umas palmadas...”. Depois, diante da perplexidade que a resposta causa, acrescento: “porém, antes de bater, pare, reflita, faça um tempo de meditação, espere um dia ou dois, se for necessário e, quando estiver totalmente calma, quando estiver ‘zen’, mesmo, então volte e dê a palmada”.
Diante dessa resposta ,a reação é quase unânime: “ah, se eu fizer isso, então não vou bater nunca!...”. Pois é. Essa é a questão de fundo. Na imensa maioria das situações, o castigo físico não é fruto da reflexão, ou de uma atitude pensada em que se chaga a conclusão de que aquilo é necessário para educar. Na imensa maioria das vezes, é fruto da irritação e do nervosismo dos pais.
A autoridade só é legítima se busca o bem daqueles que lhe estão sujeitos. E isso não somente na família, mas em toda organização em que haja uma relação de poder. Por exemplo, um governante possui autoridade, mas somente será legítimo o seu exercício se a utiliza para promover o bem comum dos cidadãos. Com maior razão, os pais detêm autoridade em relação aos filhos, mas com o objetivo de educá-los, formá-los e orientá-los.
Assim, é fundamental para o bom exercício da autoridade o prestígio dos pais. Todos já tivemos oportunidade de conviver com uma pessoa sábia e ponderada. Quando ela se manifesta sobre um determinado assunto, sua opinião tem um peso enorme. Quando faz um pedido, ainda que de forma muito sutil, esse soa como uma ordem. Assim são as pessoas que possuem prestígio. Ora, é precisamente disso que necessitam os pais para exercer a autoridade.
E não é com violência que os pais adquirem o prestígio com os filhos. Adquirem-no com o espírito de serviço. Adquirem, também, na firmeza das convicções e na constância com que atuam para formar os seus filhos. As saudáveis rebeldias dos adolescentes não podem ser algo que abale as convicções mais profundas dos pais. Ao contrário, põem-nas a prova precisamente porque eles também querem tê-las, mas, antes de abraçá-las, precisam testar a sua consistência e profundidade.
A amizade com os filhos não retira a autoridade, antes a reforça. Coisa muito diferente disso, porém, é querer colocar-se no mesmo nível, como um “amiguinho” a mais. Não! Podemos e devemos ser amigos, sem jamais deixar de ser pai ou mãe, que sabem corrigir, inclusive energicamente, se necessário.
O uso da violência na educação dos filhos, em grande parte dos casos, é demonstração da fraqueza dos pais. Com efeito, é mais fácil dar uns gritos do que explicar uma vez e outra por que se deve agir de uma determinada maneira. É, também, menos incômodo dar uma palmada do que repetir uma ordem, com energia se necessário, buscando o bem dos nossos filhos.
Além disso, muitas vezes não se tem outro recurso para fazer com que as filhas e os filhos obedeçam. Isso porque, quando se está em casa e no convívio com eles(as) são mães e pais ausentes, ainda que presentes fisicamente. Fica-se mexendo no celular, computador, TV etc. e, enquanto não é incomodado(a) por algo dos(as) filhos(as), esses(as) não existem. Ora, nessa situação, quando as crianças fazem algo errado, não há outro meio para que façam obedecer que não a ameaça, o castigo ou a agressão mesmo.
Um grande desafio, portanto, é que as nossas ordens sejam um “por favor”, e que as crianças obedeçam. Isso é possível, conquanto que sejamos mães e pais que sabem construir a autoridade com espírito de serviço, procurando com fortaleza e a cada instante o bem das nossas filhas e dos nossos filhos.